quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mitchell Heisman

Senhor jovem, escreve 1905 páginas de filosofia, explanando a sua visão do mundo, e suicida-se. Logicamente. Pelo que li até agora, um jovem extravagante, inteligente e corajoso. Um aviso (ou não) para não se pensar de mais :). Para quem se interessar por suicidas geniais (ou não), o link fica aqui:

http://www.suicidenote.info/ebook/suicide_note.pdf

Via Lubos Motl.

AiD #1 (Apple is Doomed)

Nova rúbrica, apple is doomed é sobre a constante previsão de que os investimentos na maçã são sobrevalorizados e que as suas investidas nunca darão em nada de jeito, e da hilariante confrontação com a realidade.

Neste momento, o iPad e o iPhone são os alvos a abater em muita blogosfera. A ideia é a de que a Apple não conseguirá competir com o Android pelo facto de que este é "código livre", e que isto permite a muitas empresas construtoras de telemóveis um sistema operativo que seja quase igual ao iOS, mas mais barato, numa corrida ao "fundo" do mercado, sem margens de lucro, onde o consumidor irá ganhar (e a Apple, grande inimiga do consumidor, perderá), emulando o que se passou na década de 90 nos PCs.

No entanto, a analogia é péssima, por várias razões:

Primeiro, porque a Apple neste momento não é a Apple dos anos noventa, guiada por vendedores de refrigerantes (Sculley), ao invés de pessoas com visões mais criativas e originais.

Segundo, porque a Apple, nos anos noventa, já tinha processado todas as empresas que usaram o "look and feel" do macintosh e todas recuaram excepto a Microsoft que depois conquistou o mercado dos "pc IBM-DOS compatible". Neste momento existem várias propostas ao nível dos sistemas operativos de telemóveis e nenhuma vai monopolizar mercado algum.

Terceiro, a monopolização de um sistema operativo nos telemóveis é irrelevante para a adopção de outro sistema, já que ao contrário nos PCs, ninguém se vê obrigado a comprar um iPhone por só funcionar com outros iPhones. Ao contrário do mercado original de PCs, o mercado de telemóveis é extraordinariamente compatível entre si, facilitando a concorrência, e não a estagnação numa solução "popular".

Quarto, o Android não é nenhum Windows. Ninguém pode processar uma empresa por usar e modificar o Android como quiser sem pedir autorizações. É este o grande ponto de venda do Android, mas tal como o recente escândalo no qual a Google forçou a Motorola a abandonar o serviço de localização Skyhook em favor do seu próprio mostra, o termo "Open Source" deve ser lido com pronúncia Orwelliana. E o que havemos de pensar quando a intelligentsia da Engadget vê o regresso do Windows Phone 7 series como uma benesse ao mercado que acalme a Google nesta demonstração recente de "maldades"? É um mundo virado ao contrário...

Quinto, a existência de vários sistemas operativos garante que a concorrência fazer-se-á pelos atributos normais dentro de um mercado, e não por mecanismos monopolistas que garantiram um sucesso à sombra das bananeiras a empresas vulgares e sem gosto. Neste tipo de mercados, a Apple não terá problemas em competir.


Como evidência do que digo, basta-me mostrar este gráfico que mostra tão bem a diferença entre produzir um único aparelho, concentrar todos os investimentos de design, investigação, software, publicidade, etc. no mesmo e garantir que a marca simbolize o termo "Qualidade", e a estratégia de vender centenas de aparelhos com designs medianos, softwares ligeiramente diferentes e publicidades diversas, com um esvaziamento das marcas como resultado...:



Conclusão óbvia: Apple is Doomed.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Mentiras típicas de quem tem a Verdade Absoluta ao seu lado

Retirado de dois posts do Pharyngula. Estas gemas juntas são indissociáveis.

Primeiro, o papa na sua visita ao Reino Unido recitou esta pérola de parágrafo:

Even in our own lifetime, we can recall how Britain and her leaders stood against a Nazi tyranny that wished to eradicate God from society and denied our common humanity to many, especially the Jews, who were thought unfit to live. I also recall the regime's attitude to Christian pastors and religious who spoke the truth in love, opposed the Nazis and paid for that opposition with their lives. As we reflect on the sobering lessons of the atheist extremism of the twentieth century, let us never forget how the exclusion of God, religion and virtue from public life leads ultimately to a truncated vision of man and of society and thus to a "reductive vision of the person and his destiny".


http://bengoldacre.posterous.com/nazi-youth-pope-aligns-atheists-with-nazis-bi

Nazismo = ateísmo extremista. Aliás, era tão, tão extremo, que em 1933 os malditos ateus decidiram abolir todos os grupos ateístas e "freethinkers" na Alemanha:

"ATHEIST HALL CONVERTED

Berlin Churches Establish Bureau to Win Back Worshippers

Wireless to the New York Times.

BERLIN, May 13. - In Freethinkers Hall, which before the Nazi resurgence was the national headquarters of the German Freethinkers League, the Berlin Protestant church authorities have opened a bureau for advice to the public in church matters. Its chief object is to win back former churchgoers and assist those who have not previously belonged to any religious congregation in obtaining church membership.

The German Freethinkers League, which was swept away by the national revolution, was the largest of such organizations in Germany. It had about 500,000 members ..."

[New York Times, May 14, 1933, page 2, on Hitler's outlawing of atheistic and freethinking groups in Germany in the Spring of 1933, after the Enabling Act authorizing Hitler to rule by decree]


http://scienceblogs.com/pharyngula/2010/09/list_of_hitler_quotes_in_honor.php?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+scienceblogs%2Fpharyngula+%28Pharyngula%29&utm_content=Google+Reader


Ilegalizar o ateísmo era, como todos sabemos, o caminho mais rápido e mais avassalador, um blitzkrieg intelectual para transformar toda a sociedade em ateus. Aliás, há quem diga, e acertadamente, pelos vistos, de que Hitler tinha uma agenda profundamente judaica, e que a sua "solução final" foi apenas um engodo muito, muito esperto para enganar toda a gente. Ahhh, estes nazis eram mesmo maquiavélicos!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

AG #6 - Salvar vidas?

A organização de Alimentação dos Estados Unidos lançou uma preview do seu relatório anual. Este gráfico pareceu-me interessante:



Em 2009, vemos um pico que se deveu, segundo o site, a:

Given the increased importance of biofuels and the new linkages between agricultural and energy markets, increased cereal yields, if achieved, may not necessarily continue to lead to lower cereal prices. Because the world energy market is so much larger than the world grain market, grain prices may be determined by oil prices in the energy market as opposed to being determined by grain supply.



O que é interessante, porque coloca a ênfase na equivalência entre o preço da energia e a fome de um modo extraordinariamente directo. Isto parece-me ir contra todo o tipo de políticas que pretendem subir o preço da energia a nível global (e fazê-lo apenas no mundo ocidental já não vai alterar nada no panorama global das emissões CO2).

Isto demonstra o porquê dos países menos avançados estarem relutantes em avançarem politicamente com soluções ao "problema" do CO2. Porque se o problema, em última análise, é salvar vidas (e não o planeta), o tipo de solução que encareça a energia vai contra esse intuito de um modo bem mais directo e demonstrado do que os efeitos indirectos e ambíguos do CO2.


Outro pormenor interessante é a evolução da redução da fome durante os vários anos. Embora o número de pessoas que sofrem se tem mantido mais ou menos no mesmo nível, a percentagem claramente diminuiu. Em 1969, 900 milhões de pessoas em 3.6 mil milhões é cerca de 25%, enquanto que 925 milhões de pessoas em 6.8 mil milhões é de 13%.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

AG #6 - 48 hours

Lord Oxburgh conduziu um inquérito ao climategate, concluíndo que estava tudo porreiro pá, não houve incompetências nem fraudes nem nada. Um inquérito muito divulgado por toda a blogosfera como a prova final de que os cientistas são, afinal, pessoas de carne e osso, mas desonestos não, que isso não é coisa de cientista...

Houve quem no parlamento inglês não ficasse convencido com o detalhe e competência de um relatório de cinco páginas gerido por alguém com claros conflitos de interesse não declarados sobre o aquecimento global, pelo que ontem chamaram o senhor Oxburgh para uma conversa.

Steve McIntyre transcreve:

Q: we all appreciate . can I just clarify this point – you said that all the committee members stayed in Norwich.

Oxburgh – [unintelligible]

Q – OK. Does that mean that they were spending all their time on this report over that 2 week period?

Oxburgh – Not over 2 weeks. Probably over 4 days, 5 days something like that. They’d done a lot beforehand.

Q- How much time did each individual spend working on this report?

Oxburgh – Gosh, you mean altogether, not just in Norwich,

Q- You said that it had happened over a 3 week period but most of the time was spent in Norwich.

Oxburgh – People had done an immense amount of work before, one of the most important things. They had a really tough work schedule before they arrived. Then in Norwich, when they were there, they worked continuously. Total number of person-days spent on this was around 15. Something like that. It was… does that answer your question?

Note-se a evasão. 15 dias, mais ou menos, tendo em conta que se fizeram, mais ou menos, 4 não sei, talvez 5 dias de trabalho em Norwich, já nem me lembro bem, Mas não se conte assim pois sabe como é isto de pessoas cheias de trabalho e de uma competência enorme que não olha a horários, coisa tão século XX, essa das nove às cinco, hoje em dia as pessoas trabalham no avião, no carro, usando todo o tipo de tecnologias que nos serviriam para nos libertar e não escravizar, mas é este afinal o resultado! Por isso não nos condenem logo à partida por eu dizer apenas 4, 5 dias. O que é facto é que nem sabemos de tão pouco sono que temos disponível...

Steve McIntyre:

Through FOI requests, we have obtained the actual schedule of the Oxburgh panel online here.
(...)

Travel arrangements (obtained through FOI) show that this schedule was adhered to. Oxburgh arrived in Norwich at 6:30 pm on the evening of April 6 and had a train reservation back to Cambridge at 3.40 pm on April 8.
(...)

Re-reading the schedule, it seems that the panel only spent a relatively small portion of its time actually interviewing Jones, Briffa and the CRU Team – who, by the way, seem to have been interviewed collectively rather than individually – and most of its time in “Discussion”.

No doubt Oxburgh was happy to do a favor for the UK government Chief Scientist, but surely Beddington should have thought twice about asking a favour from someone who is chairman of a subsidy-seeking wind utility (Falck Renewables).

In addition to the session of the full panel on April 7 and part of April 8, previously on March 30, Lisa Graumlich had visited CRU together with Hand and Oxburgh and met with Briffa in the morning from 9.15 to 10.45 and had panel discussions as well.

As to Oxburgh’s description of his ordeal in Norwich as “4 days, 5 days”, I’m highly sympathetic to the idea that spending almost 48 hours in Norwich seemed like “4 days, 5 days”, but using conventional time measurement techniques – such as checking the day of the week – the panel actually spent less than two days in Norwich, skipping town just as Geoffrey Boulton arrived for his one interview with CRU the next day about proxies, neither panel having bothered to compare itineraries, with Oxburgh and Hand spending an extra day in Norwich (and Graumlich only one).

Again, while Oxburgh didn’t correct the impression that the MP had been left with, Oxburgh himself didn’t expressly say that the panel had spent “most” of three weeks in Norwich.




Independentemente de todas as confusões nas descrições, as capacidades destes cientistas espantam-me todos os dias, o feito de levarem 48 horas a fazerem um trabalho de 3 semanas é algo que ficará nos anais da gestão laboral e, certamente, um case-study para qualquer outra actividade tão transparente, e obviamente competente como esta.


Update:

Steve McIntyre faz um apanhado da situação noutro post:


Um artigo de Harrabin (BBC) muito interessante sobre este inquérito, já de 5 de Julho, a ver aqui:

tem um pormenor interessante:


Since this article was published, the University of East Anglia has told the BBC that it asked the Panel chaired by Lord Oxburgh to consider whether "data had been dishonestly selected, manipulated and/or presented to arrive at pre-determined conclusions that were not compatible with a fair interpretation of the original data". The university says it is not true that Professor Davies subsequently asked Lord Oxburgh to adopt a "narrower brief" of any kind.



O problema é que Lord Oxburgh não cumpriu esta missão, de todo, avisando que o seu papel não era avaliar a ciência. Que fez ele então? Uma reunião formaleca com uns tipos porreiros, assinar uns papéis rapidamente de modo a não perder a oportunidade de um bom jantar na companhia de tão ilustres cientistas...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Show them hell Hitch!

Bestselling atheist author Christopher Hitchens showed plenty of spunk and energy in a debate tonight in Birmingham despite undergoing recent chemotherapy for esophageal cancer.

(...)

At a luncheon earlier in the day with Hitchens and Berlinski, Taunton asked Hitchens about his health problems. "Well, I'm dying, since you asked," Hitchens replied. "So are you, but I'm doing it faster and in more rich and fecund detail."

Hitchens, who has lost his hair since he debated Lennox in Birmingham last year, said he is in his fourth course of chemotherapy and it has shrunk the tumors. Hitchens said he continues to write and hopes to do a book about the Ten Commandments.

http://blog.al.com/spotnews/2010/09/atheist_author_christopher_hit_1.html


Para quem não acredita na existência de ateus na hora da morte, Hitchens é um exemplar perfeito que demole a hipótese da cobardia mental. O crente, a certa altura, aparentemente testemunha que se encontrar que a história religiosa em que acredita não for verdade, que isso arruinaria a sua vida. Don't give up so easily, propõe quem está prestes a perdê-la. Não é paradoxal que um ateu, totalmente consciente da sua brevidade neste mundo (e noutros), demonstre tão maior fé (na vida) do que um crente que passou a vida a pregá-la?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Divagações sobre o Real

Uma coisa que eu reparo neste mar de pensamentos é que, paralelamente a todas as discussões mais ou menos fúteis sobre as obsessões que nos tomam as margens encefálicas quotidianas, existe sempre um pressuposto básico que cada um pressupõe que os outros também o partilham, ou pelo menos deveriam partilhar.

Esse pressuposto é a natureza e característica do que é a Verdade, do que são feitas as ideias, se existe algo que se pode denominar de Absoluto, se o Real é algo atingível ou representável, etc.

Esta discussão divide tradicionalmente duas oposições. Uma, que garante que o Absoluto existe, que é verdade que existe algo que se possa dizer absolutamente Verdade, que coisas totais são parte do nosso universo. Outra há que garante que o absoluto é uma invenção religiosa, ou pelo menos uma tradição religiosa, que a verdade, sendo uma catalogação humana de uma série de postulados sobre determinadas observações empíricas, nunca poderá ser maiusculizada e tornada Absoluta. Existe uma fingida de terceira (Rorty), que se denomina de minimalista, que diz que palavras como "verdade" só têm sentido se usadas de um modo muito específico, e que portanto todo o debate sobre a "Verdade" simplesmente desaparece como uma nuvem mística. Digo fingida, porque para mim, não passa de um Relativismo bastante particular e preciso, e portanto pertencente à "segunda" opção.

Ou seja, não há aqui Tertium Datur: negando a verdade absoluta como ilusória, entramos num universo de relações entre proposições e observações, de mutações no modo como se usam e se reinventam as representações dessas mesmas observações, seguindo as pressões sociais e culturais. No caso científico, uma enorme pressão para melhorar a precisão, a capacidade de previsão, a simplicidade, harmonia, beleza matemática, etc., resultaram numa representação da realidade que, em alguns campos, roçam mesmo a ideia que temos de verdade absoluta. O que é irónico é que foi necessária uma metodologia que pressupõe uma constante correcção e cepticismo nas representações vigentes da realidade, uma metodologia que compreende a fragilidade dos conceitos utilizados em qualquer situação, a contingência de toda a variável sobre todo o resto do sistema representacional, em suma, uma metodologia relativista, que permitiu chegarmos a um ponto *quase* absoluto.

E este quase é importante, porque O nega. Por mais precisos que sejamos, temos a perfeita noção de que não temos ainda a verdade absoluta, e que a precisão absoluta é inatingível. Temos um conhecimento frágil e contingente, mas extraordinário.

Eu, pessoalmente, nego a primeira proposição. Acho que a existência da "Verdade", até sendo possível a sua existência, é-nos tão útil como o deus dos filósofos. Se algo é eternamente verdade, seria até possível atingimo-la, mas como saberíamos, com toda a certeza? Seria, por definição, impossível. Logo, uma noção inútil.