Como já vimos no post anterior, a própria noção de "Livre Arbítrio" parece ser fundamentalmente contraditória. Ela assume que cada "Ser" pensante, "Alma", etc., seja capaz de fazer decisões de um modo independente das partes que compõem este "Ser", chamemos-lhes o que quisermos, personalidade, juízo, razão, emoção, ou então qualquer jargão psicológico ou ainda neurológico. Isto, clarom faz pouco sentido. É praticamente auto-evidente que é uma combinação de estados de cada uma destas nossas características que determinam as nossas escolhas. A soma destas partes, que são relativamente fáceis de abstrair, compõem o todo que somos. Por sua vez, cada sub-entidade poderá ser repartida por outros conflitos e diálogos internos, processos que compõem essas sub-entidades. Na minha teoria favorita, materialista que é, imagino que será assim até se chegar aos bosões e fermiões.
Walt Whitmann disse uma vez:
Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes.
Daniel Dennett, uma estrela ateísta (mas segundo soube, pouco tido em conta em círculos neuro-científicos) propõe uma hipótese, a de que o cérebro é composto por uma plêiade de entidades em conflito, e que num processo ligeiramente semelhante à selecção natural, existe sempre um grupo de ideias, de personalidades, de desejos ou atitudes que "ganham" a luta pelo controlo do ser. É uma ideia, e faz parte daquilo a que se chama de compatibilismo, ou seja, uma filosofia na qual a ideia de "Livre Arbítrio" (ou um resquício dela) é redefinida e requalificada de modo a se compatibilizar com o Determinismo. (É a ideia mais em voga na filosofia neste momento)
Freud propôs a divisão do ser em três, talvez buscando uma certa inspiração na trindade cristã. O id, que luta pelos desejos mais íntimos e primordiais, eu quero fazer isto, o superego, que luta por aquilo que pensa ser um valor superior, por aquilo que é moral, isto é o que deve ser feito, e o ego, que tenta sempre arranjar uma solução que agrade aos dois bullys que o rodeiam, isto é o que vou fazer.
Independentemente do modelo que assumamos, e existem-nos às bagatelas já que estas entidades, embora fáceis de apreender e catalogar não serão tão fáceis de organizar (ainda não temos um modelo do cérebro humano), o que importa aqui assumir é a existência de uma organização. Aquilo que escandaliza o "Senso Comum" é a possibilidade de não haver neste percurso reducionista de observarmos as escalas cada vez menores nenhuma alteração qualitativa daquilo que observamos. São processos com sub-processos com sub-sub-processos .... até chegarmos aos fermiões, com quarks, com supercordas, etc. Não há aqui nenhum passe de mágica, uma coisa "especial", a flutuar em mini-nuvens de doçura branca com um halo brilhante à volta em lado algum.
O problema da ausência do passe de mágica é duplo. Primeiro, as pessoas deixam de ser "responsáveis" pelos seus actos.... Isto já é uma doença adivinhável: "querida, desculpa ter-te traído, mas foram os meus genes que me obrigaram" é uma frase que poderia tornar-se ridiculamente comum, não fosse a patente humilhação a que o adúltero se veria forçado. Neste sentido, pode-se imaginar algum advogado mais criativo a tentar absolver o seu cliente com o argumento de que foi o cérebro dele que o fez fazer isto (não havia um sketch dos Monty Phyton que discutia precisamente isto?). Caos social total! Nada é responsável por nada, e todos aqueles que se desculpavam das suas asneiras com o sistema, ou a sociedade, agora têm um apoio inesperado na filosofia e na ciência.
O segundo é aquilo a que o John Searle chama a atenção, o facto de que, por mais que racionalmente pensemos que a versão determinista é a verdadeira, e não possuímos um "Livre Arbítrio" real, verdadeiro (seja lá o que isto quer dizer), o facto é que não conseguimos aceitar isto, é "contra-natura" e toda a nossa mente se rebela contra a ideia. Uma vez perguntaram a Searle, se, tendo um dia todas as evidências necessárias para demonstrar a falta de "Livre Arbítrio", se ele aceitaria o facto. Searle goza com a ironia ingénua da pergunta e eu concordo que tem piada. Vejamos o seguinte diálogo:
- Do you believe in fate, Neo?
- No.
- Why not?
- 'Cause I don't like the idea that I'm not in control of my life.
- I know exactly what you mean.
Quem não consegue simpatizar com esta negação? O problema é que isto não é nenhum argumento em si, mas apenas um apelo emotivo. Searle é alguém que ao tentar fugir do determinismo do universo, refugia-se no indeterminismo da Mecânica Quântica, e ele é o primeiro a envergonhar-se da referência, de tão absurda que é.
Como resolver então o problema? A que se refere o termo "Livre Arbítrio", ou a que pode ele se referir, como pensar a liberdade, etc.?
A minha sugestão é que o problema está mal equacionado, está mal enunciado e o raciocínio inerente é contraditório. Como exemplo temos o problema mais famoso de Zenão, o grego, o da tartaruga e o da lebre. Segundo a formulação de Zenão, a lebre nunca atingiria a tartaruga, e o raciocínio parecia bom, embora absurdo. Com a formulação mais correcta e rigorosa, percebemos que não era esse o caso, e que o paradoxo é apenas fruto de um raciocínio tosco. O que proponho é que aqui lidamos com um problema semelhante, ou seja, que a ideia de livre arbítrio parece fazer sentido, mas apenas até o formularmos com todo o rigor.
O problema psicológico descreve-se desta maneira: nós sentimos que a todo o momento temos várias possibilidades, uma planície de coisas que podemos fazer, basta escolhê-las ou não. Este sentimento é fulcral para as nossas próprias capacidades de escolha. O determinismo diz-nos que é precisamente o contrário que acontece: tudo aquilo que escolhemos é determinado por coisas que "não controlamos", e que apesar de pensarmos que poderíamos ter escolhido outro "caminho" no passado, isto é uma ilusão total, existe apenas uma linha única temporal (com todos os caveats que o gato de Schrodinger coloca.
Mas há aqui um erro. O erro está, a meu ver, na antropomorfização da própria matéria, como se ela tivesse o "poder" de fazer as coisas, e nós fôssemos apenas "marionetas" de um teatro cósmico. Isto não é verdade, já que a própria noção de "poder" é humano, e descreve coisas humanas, não cósmicas. O erro está também numa desagregação conceptual do ser humano nas suas composições, como se algo fosse apenas a soma das suas partes, e de repente não passamos "de um monte de átomos sem alma". Não é verdade.
Proponho a seguinte formulação que me parece mais correcta: Nós somos uma organização hiper-complexa de átomos, proteínas, ADN, células, etc. que, através da acção determinista das coisas que nos compõem, somos capazes de tomar escolhas, escolhas estas que fazem parte do universo determinista, ou seja, que existem de facto (embora sejam inevitáveis), e que elas ajudam a moldar e a construir o mundo que nós desejamos.
Será esta visão uma espécie de Calvinismo Secular? E se esta é de facto, a realidade, não é então tudo o que fazemos, ou decidimos fazer, irrelevante? Não é esta uma resposta que insatisfaz o "Neo" que está dentro de nós?
Talvez. E por isso é que a questão me fascina. Antes de acabar o post, quero no entanto reparar num aspecto curioso sobre este calvinismo secular. É que existe uma diferença peculiar entre controlar o nosso destino e acreditar que controlamos o nosso destino. É que a segunda, mesmo num universo determinista, tem implicações estrondosas na nossa vida. Ou seja, os seres humanos que acreditam nisto têm um impacte muito diferente daqueles que não acreditam nisto. E aqui neste pormenor reside um paradoxo curioso.