quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Show them hell Hitch!

Bestselling atheist author Christopher Hitchens showed plenty of spunk and energy in a debate tonight in Birmingham despite undergoing recent chemotherapy for esophageal cancer.

(...)

At a luncheon earlier in the day with Hitchens and Berlinski, Taunton asked Hitchens about his health problems. "Well, I'm dying, since you asked," Hitchens replied. "So are you, but I'm doing it faster and in more rich and fecund detail."

Hitchens, who has lost his hair since he debated Lennox in Birmingham last year, said he is in his fourth course of chemotherapy and it has shrunk the tumors. Hitchens said he continues to write and hopes to do a book about the Ten Commandments.

http://blog.al.com/spotnews/2010/09/atheist_author_christopher_hit_1.html


Para quem não acredita na existência de ateus na hora da morte, Hitchens é um exemplar perfeito que demole a hipótese da cobardia mental. O crente, a certa altura, aparentemente testemunha que se encontrar que a história religiosa em que acredita não for verdade, que isso arruinaria a sua vida. Don't give up so easily, propõe quem está prestes a perdê-la. Não é paradoxal que um ateu, totalmente consciente da sua brevidade neste mundo (e noutros), demonstre tão maior (na vida) do que um crente que passou a vida a pregá-la?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Divagações sobre o Real

Uma coisa que eu reparo neste mar de pensamentos é que, paralelamente a todas as discussões mais ou menos fúteis sobre as obsessões que nos tomam as margens encefálicas quotidianas, existe sempre um pressuposto básico que cada um pressupõe que os outros também o partilham, ou pelo menos deveriam partilhar.

Esse pressuposto é a natureza e característica do que é a Verdade, do que são feitas as ideias, se existe algo que se pode denominar de Absoluto, se o Real é algo atingível ou representável, etc.

Esta discussão divide tradicionalmente duas oposições. Uma, que garante que o Absoluto existe, que é verdade que existe algo que se possa dizer absolutamente Verdade, que coisas totais são parte do nosso universo. Outra há que garante que o absoluto é uma invenção religiosa, ou pelo menos uma tradição religiosa, que a verdade, sendo uma catalogação humana de uma série de postulados sobre determinadas observações empíricas, nunca poderá ser maiusculizada e tornada Absoluta. Existe uma fingida de terceira (Rorty), que se denomina de minimalista, que diz que palavras como "verdade" só têm sentido se usadas de um modo muito específico, e que portanto todo o debate sobre a "Verdade" simplesmente desaparece como uma nuvem mística. Digo fingida, porque para mim, não passa de um Relativismo bastante particular e preciso, e portanto pertencente à "segunda" opção.

Ou seja, não há aqui Tertium Datur: negando a verdade absoluta como ilusória, entramos num universo de relações entre proposições e observações, de mutações no modo como se usam e se reinventam as representações dessas mesmas observações, seguindo as pressões sociais e culturais. No caso científico, uma enorme pressão para melhorar a precisão, a capacidade de previsão, a simplicidade, harmonia, beleza matemática, etc., resultaram numa representação da realidade que, em alguns campos, roçam mesmo a ideia que temos de verdade absoluta. O que é irónico é que foi necessária uma metodologia que pressupõe uma constante correcção e cepticismo nas representações vigentes da realidade, uma metodologia que compreende a fragilidade dos conceitos utilizados em qualquer situação, a contingência de toda a variável sobre todo o resto do sistema representacional, em suma, uma metodologia relativista, que permitiu chegarmos a um ponto *quase* absoluto.

E este quase é importante, porque O nega. Por mais precisos que sejamos, temos a perfeita noção de que não temos ainda a verdade absoluta, e que a precisão absoluta é inatingível. Temos um conhecimento frágil e contingente, mas extraordinário.

Eu, pessoalmente, nego a primeira proposição. Acho que a existência da "Verdade", até sendo possível a sua existência, é-nos tão útil como o deus dos filósofos. Se algo é eternamente verdade, seria até possível atingimo-la, mas como saberíamos, com toda a certeza? Seria, por definição, impossível. Logo, uma noção inútil.

AG #5 - Conversation shift

Desde o tempo de Oreskes e o seu estudo que falava numa certeza absoluta na ciência, ou desde as afirmações de Al Gore nas quais "o debate acabou", que muita coisa aconteceu. Hoje, depois de uma luta aguerrida na blogosfera, de todas as gaffes e escândalos cometidos pelo status quo, e depois de uma mais subtil mas permanente chamada à razão para o debate público do aquecimento global, parece-me que a discussão entra num outro patamar, onde o histerismo não tem lugar e uma conversa racional sobre o que realmente sabemos, o que não sabemos, as incertezas e as questões lógicas, filosóficas, políticas, etc. ganham toda a sua matiz desde o cinza mais claro ao cinza mais escuro, deixando o negro e o branco puros para uma era menos madura.

Não sei se é uma tendência para o futuro. Pode apenas revelar uma facção activista ferida e ensanguentada pelos confrontos, descansando ou preparando um novo ímpeto polarizante.

O que sei é que, por enquanto, a questão climática está a ser discutida de um modo mais adulto. Gostei, entre outras coisas, de ouvir o tom desta reportagem da BBC, Uncertain Climate, do repórter Roger Harrabin. Duas partes em 30 minutos cada.

A ouvir.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Goddidit - a história interminável de uma não explicação

Luís - Epá, viste aquele incêndio?
Manuel - Sim, foi realmente um desastre.
Luís - É evidência que Deus existe.
Manuel - Como?!? Um desastre deste tamanho...?
Luís - Ora bem. Pois que outra explicação tens para este incêndio? É claramente vontade divina. Deus criou isto!
Manuel - Ora! Pode muito bem ter sido provocado por um relâmpago por exemplo! Como vês, vontades desse tipo são desnecessárias...
Luís - Ó Manuel, vocês ateus são tão ingénuos. Então explica-me lá, de onde vem esse relâmpago? Não é ele tão claramente um grito divino? Uma expressão do Alto? Deus criou isto!
Manuel - Que eu saiba, os relâmpagos surgem devido a diferenças de potência eléctrica entre as várias nuvens com o terreno... ou com florestas neste caso...
Luís - Estes ateus e as suas respostas racionais, mas nem consegues explicar de onde a floresta nasce. Tanta complexidade! Só Deus poderia criar uma coisa assim!
Manuel - Bem, não é bem verdade, sabes que uma imensidão temporal aliada a uma selecção natural lenta mas permanente tem a tendência de criar exactamente o tipo de riqueza biológica que encontras na floresta...
Luís - Já me irritas. Pois isso pode muito bem ser verdade, mas é inegável que a selecção não explica o seu início, a sua origem. Que eu saiba a célula original é demasiado complexa para ter surgido "por acaso". Deus criou isto!
Manuel - Mas não surgiu, sabes, existe todo um campo de investigação sobre a Abiogénese, que estuda precisamente como a matéria se organizou para criar as primeiras proto-células e mais tarde as células... a investigação sugere que existe de facto um caminho viável entre a matéria inanimada e a criação de vida sem intervenção divina...
Luís- Teorias... apenas teorias! Mas dando isso de barato, de onde veio a Terra e o Sol? Claramente, objectos tão perfeitos e ricos em matéria só podem ter sido criados por Deus!
Manuel - Mas não Luís! Estrelas e planetas há-os aos triliões de triliões, e são das coisas mais comuns no universo... a própria vida pode ser perfeitamente um fenómeno trivial.
Luís - Seja, Manuel, mas tanto tu como eu sabemos que este universo teve um início! A Bíblia previu isto!
Manuel - A bíblia fala de um universo com 6 mil anos criados em 6 dias...
Luís - Não sejas literalista! Claramente fala de um início do universo. Ora, pareces ser muito esperto e explicas muita coisa que se passa no universo, mas como explicas o Big Bang? Como é que se iniciou tamanha explosão?
Manuel - O Big Bang é apenas a consequência das leis naturais, é algo que parece ter sido completamente inevitável.
Luís - És tão ingénuo. Então diz lá de onde vêm as leis?
Manuel - Here we go again...

AG #4

Como não tenho muito tempo livre, remeto-me a apontar alguns textos chave, após a publicação do relatório do InterAcademy of Sciences sobre os feitos e desfeitos do IPCC.

Dou a palavra a William Briggs:

Now, whether the IAC is sufficiently qualified to dress down the IPCC down is debatable. But dress them down they have. In a brutal report, the IAC found that the IPCC leadership was “less agile and responsive than it needs to be” in answering it many criticisms.


Este parágrafo do relatório é interessante:

[The IPCC should] give greater attention to assessing uncertainties and confidence in [key findings]. Avoid trivializing statements just to increase their confidence…Determine the areas in your chapter where a range of views may need to be described…to form a collective view on uncertainty or confidence.


William continua:

For examples of “Structural uncertainty”, they say, “Inadequate models, incomplete or competing conceptual frameworks, lack of agreement on model structure, ambiguous system boundaries or definitions, significant processes or relationships wrongly specified or not considered.”

Finally, “Value uncertainty: Missing, inaccurate or non-representative data, inappropriate spatial or temporal resolution, poorly known or changing model parameters.”

The IAC had to tell the IPCC that their pronouncements should not be spoken in the same tone Moses used when descending Sinai; they reminded the IPCC that “probabilistic approaches are available” and that they should consider reporting “ranges of outcomes and their associated likelihoods”. To make this complete, there’s a sarcastic lesson on rhetoric: “A 10% chance of dying is interpreted more negatively than a 90% chance of surviving.”

(...)

But the IAC wasn’t finished. The knife was already in and had already cut the vital organs, but they gave it a twist anyway, by stating, “[The IPCC should] be aware of a tendency for a group to converge on an expressed view and become overconfident in it”. About this quip Bertie Wooster would have said, “And they meant it to sting!”


O spin dado pelo status quo é completamente diferente. No Real Climate:

It appears mostly sensible and has a lot of useful things to say about improving IPCC processes – from suggesting a new Executive to be able to speak for IPCC in-between reports, a new communications strategy, better consistency among working groups and ideas for how to reduce the burden on lead authors in responding to rapidly increasing review comments.

(...)

The suggestions made here will mostly strengthen the credibility of the next IPCC, particularly working groups 2 and 3, though whether it will make the conclusions less contentious is unclear.


A ver também o comentário da Nature, com um título mais adequado, "IPCC must adapt to survive".

AG #3

Wall Street Journal:

This week's report, in keeping with three earlier investigations into the University of East Anglia's Climatic Research Unit, limited its inquiry to the "processes and procedures" of the IPCC. While it found those wanting, it also saw no need to question their scientific result.

That's too bad, since the state of the science has moved on considerably since the IPCC concluded in its 2007 report that climate change was "unequivocal." A forthcoming paper in Annals of Applied Statistics details the uncertainties in trying to reconstruct historical temperatures using proxy data such as tree rings and ice cores. Statisticians Blakeley McShane and Abraham Wyner find that while proxy records may relate to temperatures, when it comes to forecasting the warming observed in the last 30 years, "the proxies do not predict temperature significantly better than random series generated independently of temperature."


(Isto é sobre o enterro do chamado "Hockey Stick"....)

Also, last month, New Phytologist published a series of papers examining the Amazon rain forest's vulnerability to drought, following years of increasingly dire predictions that anthropogenic carbon emissions and global warming will kill off Amazon trees. Climatologist Peter Cox, a co-author on four of those papers, told us, "One of the things that turns out to be important is the extent to which tropical forests respond positively to CO2 increases."


Ou seja, nem se sabe se o efeito é positivo ou negativo... Conclui,


None of this proves or disproves anything, except that our understanding of how our climate works is still evolving. Is it too much to ask the climate establishment to acknowledge as much?


Usando a língua original, I wouldn't hold my breath. O que é curioso é que quando, 6 anos atrás, Michael Crichton defendeu esta mesma tese (a de que sabemos muito menos do que pretendemos saber sobre o clima), foi incinerado pelos media. Hoje, passados quase 2 anos após a sua morte, os media lentamente adoptam a sua posição. Não tenho é grandes expectativas de que o próximo relatório do IPCC, em 2014, chegue a esta humildade (embora hajam indicações nesse sentido). Talvez em 2021?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Boa posta, esta do Climate Resistance.

Simms would never let a good crises go unexploited. But there is no reason why the ‘kind of extreme events’ seen in Russia and Pakistan this summer could be entirely eliminated. The world could have easily produced a surplus of grain, and Pakistan’s civil infrastructure could have been developed, such that people could be at least protected from so much moving water. It’s what didn’t happen which cause these problems, not what nature threw at the world. It’s worth pointing out that problems of drought are fundamentally problems of relying on natural processes for sustenance – which the NEF want us to do more of. But increasing our dependence on natural processes necessarily means risking more to the whims and changes of nature, making us more vulnerable to what happened in Russia, not less. In the case of Pakistan, once again it has been shown that it is those who live ‘sustainable’, ‘low-impact’ lifestyles — advocated by the NEF — who are most vulnerable to nature. It’s poor people who live under those ‘ecological dominoes’, not the policy directors of self-regarding ‘think’ tanks.


Precisely ;)